Quando o inimigo dorme em nossa cama – Violência doméstica contra a mulher no Tocantins

(Uol) Imagem: Getty Images/iStockphoto

Por Weslene Rocha

Um levantamento feito pela Polícia Militar do Tocantins revelou que mais de 1.700 casos de violência contra a mulher foram registrados somente no primeiro semestre de 2019. Esse número representa um aumento de 22% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 1.421.

As vítimas podem ser as mais diversas, mulheres ricas, pobres, brancas, pretas, indígenas ou das mais diversas religiões e culturas. A violência doméstica contra a mulher, no geral, envolve comportamentos de controle sobre a outra pessoa.

Segundo um estudo divulgado pela APAV- Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, as mais diversas formas de violência abrangem desde violência física, abuso sexual, manipulação psicológica ou domínio sobre as finanças da companheira.

A violência emocional se dá ao momento em que o companheiro age de maneira em que você se sinta inútil, como, ameaçar os filhos, animais de estimação, humilhações na presença de amigos e familiares, ou em público.

A violência social é quando qualquer comportamento que intenta controlar a vida social do companheiro, através de, por exemplo, impedir que visite familiares ou amigos, cortar o telefone ou controlar as chamadas e as contas telefônicas, trancar o outro em casa.

A mais clara, violência física qualquer forma de violência física que um agressor inflige ao companheiro. Pode traduzir-se em comportamentos como: esmurrar, pontapear, estrangular, queimar, induzir ou impedir que o companheiro obtenha medicação ou tratamentos.

Muitas vezes, as mulheres não percebem essa forma de agressão, a violência sexual é quando qualquer comportamento em que o companheiro força o outro a protagonizar atos sexuais que não deseja. Pressionar ou forçar o companheiro para ter relações sexuais quando este não quer, relações sexuais desprotegidas, forçar o outro a ter relações com outras pessoas.

A violência financeira é qualquer comportamento que intente controlar o dinheiro do companheiro sem que este o deseje. Controlar o salário do outro, recusar dar dinheiro ao outro ou forçá-lo a justificar qualquer gasto, ameaçar retirar o apoio financeiro como forma de punição por algum suposto ato.

A perseguição é quando qualquer comportamento que visa intimidar ou atemorizar o outro. Seguir o companheiro até o seu local de trabalho ou quando este sai sozinho, controlar constantemente os movimentos do outro, quer esteja ou não em casa.

Violência psicológica e agressões verbais

Em um relato anônimo, uma jovem moradora de Luzimangues conta como foi vítima de seu companheiro e viveu por anos em um relacionamento abusivo, que lhe gerou transtornos e depressão.

“Eu vivi com um rapaz, no começo demonstrava ser totalmente diferente, atencioso, carinhoso, mas foi passando o tempo e quando fomos morar juntos, já começou, primeiramente com agressões verbais, me xingando, me chamava por palavrões, sempre me colocando para baixo, dizia que eu era feia. Foi passando o tempo, ele chegou a me agredir, me bateu, e eu sempre pensei que iria chegar um momento que ele fosse mudar, mas isso não aconteceu”.

A jovem se separou do ex-marido há cerca de dois meses e hoje diz que se sente bem, que está feliz, por não sofrer mais agressões verbais e físicas.

A imagem dos pés fotografados na época de seu relacionamento, para ela, demonstra o quanto ele se sentia inferior. Ela relata que não se cuidava, não sentia vontade de se arrumar e chegou ao ponto de não se importar mais com os cuidados pessoais.

Hoje, a jovem mora sozinha, saiu do relacionamento e está tentando continuar sua vida, ela conta que está grávida, e que a separação veio logo após a descoberta, quando o ex-companheiro rejeitou com sua gravidez, “Ele me disse que filho ele faz outro, que não quer saber do que estou carregando”.

Violência financeira e psicológica

Em alguns casos, a violência além de psicológica e física, vem em forma de dano ao patrimônio alheio. No último dia 22 de setembro, a moradora de Taquaruçu, Neila Pereira, ao retornar de um passeio com alguns amigos, se deparou com sua residência em chamas. 

O autor do crime foi seu ex namorado, com quem Neila se relacionava há quatro anos. “Eu estava separada dele há um mês, me falaram que ele já tinha outra pessoa, estava namorando, e eu não me importei”. 

Ela conta que ao anoitecer do domingo, 22, saiu com os amigos para ir em uma festa na região de Taquaralto. “Por azar, ele passou pela gente em uma moto grande. Ele reconheceu o carro de longe, por causa do modelo das rodas, me viu, e já partiu para cima do carro. Ele viu homem dentro do carro e já partiu para cima. Ele falava que não aceitava homem nenhum comigo, que me amava”. 

Ela diz que quando ele se aproximou do carro, se desequilibrou e caiu da moto, daí ela viu a oportunidade de acelerar e fugir para outro lugar, até parar em um bairro mais distante.

Segundo a vítima, o autor do crime arrebentou a porta da cozinha com um machado. Ele chegou a gravar vídeos enquanto ateava fogo em sua casa, e nas imagens ele dizia para Neila que homem nenhum dormiria em sua cama e que ela não seria de mais ninguém.

Ela também diz que o relacionamento deles dois sempre foi conturbado. “Não era uma coisa segura. Era um relacionamento conturbado, em uma semana ele ficava, em outra semana ele surtava, sumia, chegou a ir até para Mato Grosso do Sul… Era desequilibrado”, desabafa a vítima.

O homem fugiu logo após o crime, mas Neila conta em poadcast, como fez para que ele se confessasse e como arquitetou para que ele fosse preso.

A mulher conta que atualmente está tentando se reerguer, levar uma vida normal, apesar de ser muito difícil. “Saí para me divertir e quando voltei me deparei com nada, não tinha mais nada, só a roupa do corpo. Mas graças a Deus eu tenho amigos, tenho Deus e as coisas vão se ajeitando aos pouquinhos”, completou ela.

Conheça a Patrulha Maria da Penha

Segundo a Capitã Flávia Roberta Pereira de Oliveira, comandante responsável pela Patrulha Maria da Penha, o projeto foi implantado na Polícia Militar do Tocantins no dia 17 de dezembro de 2018, com a assinatura do Termo de Cooperação Técnica entre a Polícia Militar, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e Secretaria de Segurança Pública.

Cap. Fávia Roberta, comandante responsável pela Patrulha Maria da Penha. Foto: Jessica Montoya.

A capitã conta que a finalidade precípua deste novo tipo de policiamento é proteger a mulher em situação de violência doméstica e familiar, através da fiscalização da medida protetiva de urgência. “Assim sendo, é realizado o acompanhamento da mulher em situação de violência e também do agressor fazendo, desta forma, com que o previsto na Medida Protetiva seja obedecido”, pontuou ela.

Capitã Roberta ressalta que no primeiro semestre do ano de 2019 já foram registradas 2003 ocorrências no Estado do Tocantins, destas 865 na capital. No mesmo período do ano passado foram registradas 1719 e durante todo o ano de 2018, 3207 ocorrências, conforme o sistema integrado de atendimento e despacho da PMTO.

Atualmente a Patrulha Maria da Penha atende 30 mulheres, em toda a capital, e já realizou deste o início da sua atuação operacional, em fevereiro de 2019, mais de 250 visitas, as quais são realizadas na residência, no trabalho ou no local que a atendida desejar.
Foto: Jessica Montoya.

Para ser atendida pela Patrulha Maria da Penha, a mulher em situação de violência precisa denunciar o agressor em uma delegacia de polícia e no ato da denúncia informar o desejo do acompanhamento pela Patrulha, o qual será encaminhado para a vara de combate à violência doméstica e familiar de Palmas-TO e após análise do caso concreto fará o encaminhamento para a Patrulha Maria da Penha.

Onde buscar ajuda?

Segundo a Defensoria Pública do Estado do Tocantins, no ano de 2018, foram realizados 1.831 atendimentos referentes à violência contra a mulher. Desses atendimentos, 975 foram em Palmas, 537 em Araguaína e 195 em Gurupi.

Em entrevista, a Coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher – Nudem, Franciana Di Fátima Cardoso, contou que a Defensoria Pública tem um papel fundamental na formação e orientação e na assistência de mulheres vítimas de violência, assim como, na elaboração de políticas para o atendimento à todas essas mulheres. “Um desenvolvimento de políticas educacionais, apoio, um bom encaminhamento para redes, formação, trabalho educativo e propositivo junto ao sistema de proteção junto à rede e ao sistema de justiça”.

Franciana Di Fátima Cardoso diz que é papel da Defensoria Pública fomentar discussões sobre gênero, o enfrentamento das questões do machismo, assim como promover atividades que possam garantir a igualdade de gênero. Marcus Mesquita / Ascom DPE-TO

A defensora explica também que o papel da Defensoria Pública é realmente contribuir para a erradicação das desigualdades e a garantia de direitos sociais das mulheres.

Para ela, é importante que a mulher pode sempre procurar a Defensoria Pública, todas as vezes que ela estiver se sentindo violada, violentada ou simplesmente para tirar dúvidas a cerca de seus direitos. “A Defensoria está aberta para orientação, para atividades preventivas e também para medidas judiciais, caso sejam necessárias. Esse trabalho é realizado não só pelo acionamento da rede, como também pela propositura de ações perante o poder judiciário e outras medidas legais, inclusive extra-judiciais quando cabíveis”.

Veja abaixo, os dados de atendimentos à vítimas de violência doméstica contra a mulher, realizados pela Defensoria Pública do Tocantins.

Franciana Di Fátima Cardoso explica que quando a instituição toma determinadas atitudes, como por exemplo, uma medida protetiva de urgência, em que a gente afasta o agressor, “consegue contribuir para que essa mulher saia do convívio tao imediato do seu agressor e dessa forma tenha a sua integridade física preservada”. Ela também explica que, as vezes, através da garantia de aceso aos alimentos, da regulamentação de guardas, no caso de violência contra a mulher, se proporciona que essa mulher tenha sua vida de forma regulamentada e protegida das formas de abuso.

Por fim, a defensora avisa que existem vários instrumentos que devem ser tomados e por isso devem ser avaliados caso a caso, não sendo possível falar de alguma medida que seja uniforme e adequada a todos.

Nem tudo está perdido, existe uma saída!

A influenciadora digital tocantinense, Sayma Duailibe, era casada com um empresário pernambucano, quando em maio deste ano, denunciou em seu perfil do Instagram, agressões físicas e psicológicas vividas dentro de casa.

Na época, a jovem morava em Recife-PE, e surpreendeu seus quase 170 mil seguidores, ao aparecer chorando, com as mãos ensanguentadas e alguns hematomas.

Segundo divulgado no site G1 de Pernambuco na época, ela relatou como foi a agressão, “Estava tomando banho quando o Fernando entrou descontrolado, disse que era para entregar a chave do carro, que eu não ia sair de casa, sendo que na verdade, eu não estava tomando banho para sair”, relatou ela na rede social.

A notícia foi divulgada em rede nacional. A digital influencer relatou outras agressões e também fez boletim de ocorrência.

“O ciúme é uma coisa ruim, fora do limite. É muito difícil quando a gente passa por momentos iguais ao que eu estou passando com uma pessoa que não me respeita, que acha que é dona do mundo, que pode fazer o que bem quer com a mulher, que pode faltar com respeito e levantar a mão”.

Após as agressões ela conta que foi expulsa de dentro da sua própria casa somente com suas roupas e os pertences de seu filho, fruto da relação com o empresário.

Por ser uma pessoa conhecida acabou passando por situações delicadas, inclusive acusações por parte do ex-marido, de que estivesse fazendo isso para “se promover”.

Sayma se separou e precisou recomeçar do zero. Ela conta que foi impedida até de pegar seus documentos pessoais de dentro da casa. E agora, quatro meses depois, ela voltou a morar em Palmas -TO, com o filho e sua família.

Sayma Duailibe diz que hoje define toda a situação como um alívio. “Eu vivia dias tristes, onde eu não tinha sentia um pingo de felicidade. Chorar, ficar triste, trancada em um quarto o dia todo, foi o que definiu minha vida por muito tempo, acredito que tomei a melhor decisão da minha vida”, diz ela sobre sua separação.

Agora, que ela passa por uma fase de recomeço, ela conta como faz para se reconstruir. “Recomeçar a vida, ressurgir das cinzas, é preciso primeiramente, muita resiliência.

“No meu antigo relacionamento, meu parceiro sempre me deixava pra baixo, me diminuía”. Ela diz que para ela é a pior sensação da vida, e dá a dica, “Acreditar no seu potencial, aonde você quer é pode chegar é o mais importante de tudo!”. Foto: Divulgação

A digital influencer aconselha a quem ainda passa por essa situação, que tenham coragem para sair de uma vida de humilhações. “Não sei definir o que mais machuca, a dor física ou a emocional, mas sei que vocês buscam forças pra sair dessa situação, ainda mais quando ela envolve filhos pequenos, caso vocês tenham dúvidas sobre como será a relação do pai com o filho após uma denúncia, com a dúvida de que você vai conseguir cuidar do seu filho sozinha, basta acreditar, você é capaz disso e muito mais, principalmente por você e pelos seus filhos, você não merece esse estilo de vida, não mendigue amor e não aceite migalhas. Não aceite ninguém subir o tom de voz ou “arribar” a mão pra você“, finalizou ela!

Assim como Sayma, muitas mulheres famosas viveram situações de abuso dentro de casa, entre elas, Luiza Brunet, que denunciou seu ex-marido por agressão. Segundo ela, ele aplicou socos e chutes, que a deixaram com hematomas e costelas quebradas.

Outras mulheres que também tiveram coragem de expor a situação foram, Rihanna em 2009, Mulher Moranguinho em 2017, Luana Piovani em 2008 e a cozinheira Palmirinha, que surpreendeu a todos quando contou que viveu todo o seu casamento, sendo agredida e humilhada pelo pai de suas filhas.

Apesar de inúmeros casos ainda não serem registrados, os relatos de mulheres famosas acabam estimulando mulheres comuns à também denunciarem situações parecidas, porque acabam se refletindo na coragem demonstrada por elas.

Saiba identificar sinais de um relacionamento abusivo

O Portal Gazeta do Povo, reuniu em um artigo, 21 sinais de que o seu relacionamento pode ser abusivo e você pode não se dar conta. A identificação desses sinais o quanto antes, pode fazer com que as mulheres tomem a iniciativa para sair de situações assim, e também ajudar outras mulheres, seja de maneira direta ou indireta.

  1. Você passa por humilhações e constrangimentos perpetrados por seu parceiro
  2. O seu parceiro sempre te põe para baixo
  3. O seu parceiro te critica com frequência
  4. O seu parceiro se recusa a conversar
  5. Ele te ignora ou te exclui
  6. O seu parceiro te trai
  7. Ele age de forma provocativa com outras pessoas do sexo oposto
  8. O seu parceiro é sarcástico ou tem um tom de voz grosseiro
  9. O seu parceiro tem ciúme sem motivo
  10. Ele é mal-humorado com frequência
  11. O seu parceiro tira sarro e faz piadas com você
  12. Ele diz: “Eu te amo, mas…”
  13. O seu parceiro diz coisas como: “Se você não fizer ________, eu vou __________”
  14. Você se sente controlado e dominado
  15. O seu parceiro te chantageia com ausência de afeto e carinho
  16. Você sente culpa com frequência
  17. O seu parceiro diz que tudo é culpa sua
  18. O seu parceiro isola você de seus amigos e familiares
  19. Ele te controla financeiramente
  20. O seu parceiro pergunta todo o tempo o que você está fazendo quando você não está com ele
  21. Ele ameaça se suicidar se você o deixar

Se você viu o seu relacionamento enquadrado nessa lista, saiba que as chances de que as coisas mudem são muito baixas. Isso exigiria uma clareza de visão e uma força de vontade monumentais para o abusador e, infelizmente, na maioria das vezes isso não acontece.

É preciso que a vítima procure ajuda psicológica, o que ajuda a recobrar a autoestima, e tenha a coragem de sair desse ciclo sem olhar para trás. Muitas vezes o abuso vem disfarçado de amor, e apesar de muitas mulheres não perceberem é assim que se começa um situação mais complicada, onde pode existir os diversos tipos de agressão.

Procure ajuda!

Delegacia da Mulher

Centro: Quadra 604 Sul Alameda 14, 14 – Lote 37 – Plano Diretor Sul, Palmas – TO, 77022-013 Taquaralto: Rua Francisco Galvão da Cruz, Qd. 44, Lote 12, Térreo Também estão estão disponíveis os seguintes telefones para contato (63) 3218-8479 e (63) 98128-4700.

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